sábado, 28 de fevereiro de 2009

Suco de Morango

Rafael acordou e tratou de rapidamente vestir seu uniforme. Era o segundo dia de aula na escola nova. Estava com o coração batendo rápido assim. Levantou, escovou os dentes com a pasta doce de framboesa (sua favorita) e foi para a pequena cozinha do apartamento.

Sua mãe lhe deu um beijo molhado de bom dia e seu pai abaixou os óculos e cheirou seu cabelo. Seus fios negros embaraçaram, mas logo voltou a arrumá-los com uma das mãos.

Sentou à mesa, comeu um pãozinho com manteiga e tomou leite da branca caneca plástica do Super-Homem. Perguntou as horas e mamãe disse que estava quase na hora de sair. Ficou ainda mais empolgado. Sorriu.

Quando terminou, papai disse que o levaria à escola. Estava de férias do escritório e podia fazer isso por alguns dias. Deram as mãos e após um beijo da mamãe, saíram pela porta do modesto apartamento no primeiro andar e desceram as compridas escadas azuis-bebê até o piso térreo.

Saudaram o porteiro, com o sorriso ainda não havia saído de sua face. Rafa gritou por dentro de excitação. O sol estava forte e descoloria seus cabelos. Sua lancheira brilhava, assim como seu rosto. Até a camisa branca do papai estava mais clara que de costume.

Atravessaram a rua, e passaram pela papelaria. Viu cadernos, uma infinidade de canetas das mais diversas e bonitas cores que já vira. Passaram também o restaurante (que batia as toalhas na calçada), a padaria-com-cheiro-de-pão-com-manteiga, as casas amarelas e a van da tia que fazia cachorros-quentes com mostarda.

Quando chegaram à esquina da rua principal, papai percebeu um movimento bem intenso de carros, e Rafael percebeu que a escola estava do outro lado da rua. Papai percebeu que um carro atrás do semáforo tinha ultrapassado ziguezagueando o sinal vermelho e, Rafa, que aquela nuvem lembrava um pato. Papai viu o carro chegando à esquina em alta velocidade e Rafael olhou seus sapatos desamarrados e abaixou.

Papai se virou e tropeçou sobre Rafael. Caiu em cima de suas costas e fez o menino cair pro lado. O carro veio. Acertou duas senhoras que estavam do lado. Rafael percebeu que quando as moças caíram no chão, soltaram suco de morango pela boca e se contorceram acrobaticamente pra baixo dos pneus fumegantes. Seu sorriso desabou quando percebeu que também havia suco de morango na cabeça do papai.

Papai se levantou, meio tonto, puxando Rafael para longe da fumaça e do círculo de pessoas que havia se formado. Rafa viu a tia do cachorro quente chamando por Deus quando o viu. O abraçou forte que até machucou. Levou ele e seu pai para dentro da van e ligou pra mamãe.

Rafael ficou triste.
Iria perder seu segundo dia de aula.

5 comentários:

Dario Duarte disse...

Bonito.
Triste.
(não nessa ordem, ou sim)

Gosto de como o narrador se envolve com o universo da criança.

E há uma linha tênue entre o assustador e o maravilhoso.

Valéria disse...

sim! é belo aqui.
um abraço

Ricardo Valente disse...

Mui bom, grand finale. Abração!!!

Bruno Portella disse...

A narrativa encantadora, mesmo quando o acidente acontece é muito legal.

Belo conto, rapaz!

É como o Dario disse, uma linha tênue entre a fantasia infantil e a morbidez da realidade.

Ricardo Valente disse...

Aviso: troquei o endereço do meu blog para poemaEfilosofia.blogspot.com
Abração!