domingo, 18 de janeiro de 2009

O crime perfeito

Chuva.

Trovão.

Não acreditei em nenhuma palavra que ele dissera no quarto. Sua raiva espumante parecia insaciável conforme ele falava sobre a traição de Carmen. Embora eu também não acreditasse que ela seria capaz de tal ato, eu pensava, pelo menos, que o instinto assassino de marido nunca iria tomar seus pensamentos daquela maneira.

Matar?
Ele não seria capaz de matá-la. Pelo menos não naquela noite...

Saí do quarto, antes que terminasse a promessa de vingança. Desci as escadas. Saí correndo, rasgando pelo ar e atravessando a porta da frente como se ela não estivesse lá.

Chuva.

Eu precisava vê-la, alcançá-la antes que...

Trovão.

Atravessei a rua correndo, encharcando meu sobretudo preto a cada passada. Olhava no relógio incessantemente e rezava para que ela ainda estivesse a salvo. Não que eu acreditasse em Deus, mas era inevitável pensar que o pior podia acontecer.

Poça d'água.

Cheguei na frente do prédio enfim. Estava arfando, molhado. Enxuguei os óculos tão fortemente que quase cheguei a quebrar. Bati na porta.

Nada.

Bati novamente e não obtive resposta. Corri para o lado da parede de pedra até a janela escura. Olhei pelo vidro e a vi, deitada no chão, ensangüentada.

Não era possível. Não havia dado tempo para a execução. Eu tinha saído antes dele, sabia disso. O desepero tomou conta de minhas ações. Voltei a porta e a arrombei violentamente, sem pensar nos danos ao meu braço que, àquela altura, já não me obedecia.

Cheguei a sala, mas ela não estava lá.

- Me enganei? Não... impossível. Ela estava aqui. Deitada no chão...Carmen...CARMEN!

Disparo.

Um mar de fogo pareceu inflamar minhas costas. Minha visão ficou turva como a chuva que caía do lado de fora. Meus braços, minhas pernas... a dormência era estranha, incomum. Era como se uma névoa negra me envolvesse ao poucos e completamente. Caía no chão tão vagarosamente que meu tempo pareceu parar.

Me virei finalmente e a vi, em pé, com a arma na mão.

- Carmen...

Não entendi nada o que havia acontecido. Não entendi o ódio falso do marido minutos atrás. Não entendi o sangue em seu corpo que nunca havia estado lá. Não entendi a dor que sentia. Não entendi mais nada.

Só descobri que a armadilha que havia caído tinha sido perfeita.

Trovão.

Chuva.

2 comentários:

Dario Duarte disse...

Pequeno Edgar Allan Poe.
Lindo!

Ricardo Valente disse...

Suspense e surpresa, com susto. Su.......cesso for you!!! Abração!